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ENTREVISTA COM ROBERTO CABRINI

Atualizado: 24 de Jun de 2019

Os desafios do jornalista na atualidade. Roberto Cabrini defende que, mesmo com as transformações tecnológicas, o importante são as histórias contadas.


Jornalista Roberto Cabrini completa 10 anos de SBT. Foto: Lourival Ribeiro

O jornalismo é o grande sacerdócio do Francisco Roberto Cabrini (58). Nascido em Piracicaba na década de 60, o repórter investigativo do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), tornou-se renomado na correspondência internacional, cobertura de seis guerras (Afeganistão, Iraque, Palestina, Camboja, Caxemira e Haiti), defesa dos direitos humanos e na investigação de casos emblemáticos da sociedade brasileira, como a célebre entrevista com o presidente Fernando Collor de Mello depois do impeachment.


Ao completar 10 anos de SBT, Cabrini coleciona prêmios que endossam seu extenso currículo, o Esso, APCA, Líbero Badaró, Imprensa, Tim Lopes e Vladimir Herzog, dentre outros. Diante de tamanhas experiências, o jornalista se posiciona a respeito da profissão do jornalista na atualidade.


Conexão Repórter com Roberto Cabrini. Foto by Lourival Ribeiro / SBT.

Diante da sua trajetória profissional e experiências de vida, qual é a essência do jornalismo? A nossa matéria prima é o ser humano. O ser humano é maravilhoso. Todo o ser humano, inclusive os mais tímidos, os aparentemente menos interessantes, têm uma história para contar, têm uma face para ser devidamente mostrada e têm uma nobreza para ser valorizada do que eventuais defeitos.


Nesses 42 anos de carreira, qual o maior orgulho da sua profissão? Eu tenho muito orgulho de ser um repórter. Se existe algo que a gente assistiu ao longo dos tempos, são as memórias. Eu comecei em televisão, a televisão ainda usava filme em preto e branco, entendeu? E eu assisti toda uma evolução. Para você fazer uma cobertura de guerra, você tinha que andar, às vezes, três mil quilômetros para fazer o que a gente chamava de UpLink e a tecnologia mudou tudo isso. Se eu quisesse fazer uma entrevista contigo, eu ia usar o cedoc e o resultado ia demorar uma semana. Eu faço isso hoje, num clicar de Google. Ou seja, a modernidade alterou como a gente trabalha.


Qual a principal mudança do jornalismo com o passar dos anos? Nós estamos numa época onde máquinas conseguem escrever textos e só uma coisa não mudou, em tempos onde o jornalista se transforma em seres, às vezes até solitários, que eles ficam em terminais de computador, quando nos primórdios saiam na noitada para conseguir informações.


A tecnologia fez com que a essência do jornalismo perdesse o seu foco? Não. Mesmo com todas essas transformações tecnológicas, um aspecto jamais mudou no jornalismo. E isso eu digo no momento em que jornais impressos têm fechado seus parques industriais, porque tem havido uma convergência para multimídia. Todos veículos têm convergido para se tornarem apenas um. Mas, um aspecto jamais vai mudar. Já era importante é importante instrumento mais importante amanhã: a necessidade de contadores de história, porque no final do dia nós somos contadores de história.


Além de jornalista e apresentador, você também é palestrante. Que tipo de conteúdo você leva aos seus expectadores? Eu gosto de ser um provocador, um estimulador. Não fazer com que as pessoas pensem como eu, mas, sim, muni-las de informação para que elas, devidamente conscientizadas, possam tomar a melhor decisão.


Como se provoca as pessoas, em prol da melhor tomada de decisão? A nossa função não é fazer com que as pessoas pensem como a gente pensa. A nossa função é dar informação para que as pessoas se tornem mais sábias e tomem decisões melhores do país.


De que maneira a provocação do jornalista é relevante para o seu público? A gente está num momento crítico no país, onde tem sido muito difícil saber em que acreditar. É uma crise existencial coletiva, é isso que a gente assiste do Brasil, né?


Como você avalia a atual conjuntura política do nosso país? A classe política perdeu a sua credibilidade, salvo raríssimas exceções. Eu sonho todos os dias no momento em que o povo consiga votar melhor. Então, eu acho que a nossa função é ajudar nesse processo. A gente tem que ajudar nesse processo para que o país consiga se tornar mais questionador.


De que maneira o jornalista pode influenciar no desenvolvimento do poder questionador do cidadão? Cada vez que eu faço uma reportagem, eu penso sempre o quanto essa reportagem vai ajudar as pessoas a questionarem mais. Porque um povo que questiona mais é um povo que toma também as melhores decisões. Um povo é que vai saber escolher pessoas que não estejam tão facilmente envolvidas, tão facilmente tomadas pela corrupção. Então, a gente precisa cada vez mais se dedicar nesse sentido e eu procuro fazer a minha parte. Eu não acredito em super-heróis. Pobre do país que precisa de heróis.


Do que precisamos? A gente precisa, Fábio, de um esforço coletivo no sentido de que a gente cresça, como um todo.


Fábio do Bú entrevista Roberto Cabrini. Foto: Felipe Almeida.

Cabrini, você conhece a Paraíba? Se existe um lugar gostoso estar, uma população calorosa é a população paraibana. Poxa, eu vou lá, é um bolero de Ravel, a Areia Vermelha. É um povo que te recebe uma forma impressionante.


Temos muitas histórias para contar, concorda? É um povo contador de causos, muitas histórias para contar. Sempre que vou lá, fico só ouvindo. É um prazer, sempre estar lá na Paraíba, porque é um lugar muito especial do nosso país, por esta personalidade e pelo calor humano, também. Então, não tem como não admirar. Quando eu chego lá, e já passei muitas férias, acho é muito gostoso.


O que você pode destacar da Paraíba? Eu acho impressionante como as pessoas da Paraíba são autodidatas. Às vezes, elas tiveram pouca informação, pelas questões sociais, má distribuição de renda no país, problemas seculares, problemas até de corrupção no país inteiro, mas, quando a gente está na Paraíba, a gente diz: poxa, esse país tem jeito na solidariedade, no calor humano e no bom humor. O paraibano é um “cabra” arretado.

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